A história do Vale do Capão, por Sâmia Rocha
O Vale do Capão, pequeno povoado que de pequeno não tem mais nada, surgiu há muito tempo, muito mesmo, antes das histórias mais antigas lembradas pelos ilustres mentores e anciãos do lugar. Datado de tempos inglórios da nossa história nacional, que se encontrava em conflitos extremamente importantes para a formação do nosso país, como a Guerra de Canudos e a grande seca de 1877. Um documento antigo de 1681, dos bandeirantes paulistas, quando exploravam as altas montanhas do sertão baiano, descreve a descoberta de um grupo de quilombo nas montanhas da Chapada. O grupo quilombola parecia já bem instalado e desenvolvido há algum tempo. Não se sabe como chegaram até lá, mas a narrativa conta sobre um suposto naufrágio de um navio negreiro no litoral baiano, e assim, os sobreviventes teriam seguido o percurso do Rio de Contas, chegando às montanhas da Chapada. Esses foram os primeiros moradores da região, mas no século XVIII, com a descoberta do ouro, a coroa portuguesa começou a explorar o lugar, hoje conhecido como Chapada Diamantina.
Em 1877, data-se o registro mais antigo que cita o Capão em um documento formal. Como sabemos, hoje a região onde está o Capão, uma imensa área florestal repleta de montanhas e cidades, a Chapada Diamantina, inserida no Parque Nacional da Chapada Diamantina, possui esse nome “Diamantina” por conta das grandes descobertas de diamantes. O primeiro diamante encontrado no lugar foi em Mucugê, em 1844, que, dentro da Chapada, é um dos locais mais explorados pelo garimpo, ainda contendo inúmeras cavernas deixadas pelos garimpeiros, hoje atrações para o público. Após isso, milhares de pessoas vieram à Chapada em busca da mesma iguaria, incluindo o Vale. O Capão surgiu como projeto agrícola, financiado por donos do ramo do garimpo, com a intenção de aumentar o mercado da exploração na região. Mas o ciclo da busca pelo diamante foi curto, pois, em 1860, houve a descoberta de diamantes em outras regiões, como no Cabo da Boa Esperança, na África, e em Salobro, na Bahia. Assim, após conflitos, guerras e crises econômicas, o diamante perdeu valor, e a economia na Chapada quebrou totalmente.

Primeiro registro histórico que cita o Capão
Segue uma citação de um documento do historiador Gonçalo de Athayde Pereira em “Memória histórica e descritiva do município dos Lençóis”: “Os efeitos da guerra franco-prussiana muito contribuíram para tamanha desgraça, agravada ainda com a descoberta das minas do Salobro, no sul do Estado, o que ocasionou a retirada de grande parte da população de Lençóis em busca, talvez, de Eldorado. São de prever as consequências de tais abalos e o pânico que por longo tempo trouxe aquele povo num atordoamento extraordinário. Afinal, decidiram-se alguns dos moradores à lavoura do café, formando-se o grande povoado do Capão Grande.” – Texto de um português do século XIX.

Mas o solo fértil do Capão se fez presente, e para não ruir sua economia, o lugar foi transformado em um grande centro de lavouras de café, focando mais nos cultivos e expandindo a criação de gado. E assim surgem os primeiros registros do lugar, que cresceu com os pequenos feudos e fazendas independentes, além do aumento da população. O Capão, antes nomeado de Capão Grande, tornou-se um grande produtor de café. A terra era apta ao plantio, e o café era de qualidade excepcional, sendo comparado aos melhores do mundo. Para o escoamento do café, foram construídas inúmeras rodas d’água. Hoje, restam apenas os encaixes, mas, por anos, o Capão foi lar de inúmeras rodas d’água, cuja função era majoritariamente o escoamento do café. Mesmo assim, não era suficiente. Contudo, havia problemas, pois, com as grandes quantidades, seriam necessários meios de transporte eficientes, algo que não existia, já que o acesso ao lugar era complicado e a transportação do produto ainda mais. Ao final de uma matéria de jornal de 1877, faz-se uma súplica ao governo, pois o acesso ao lugar era restrito, e eles não tinham meios de transporte, nem trens nem estradas. Com isso, os empresários começaram a se retirar, indo embora por falta de expectativa de vendas, deixando apenas os trabalhadores, que vendiam apenas para o mercado regional e cidades vizinhas.
O governo só fez algo no ano de 1889, quando construiu uma estrada ligando Lençóis ao Capão, conhecida hoje como “Trilha das Mulas”. Além disso, criaram outras ligações, como uma saída para a Volta da Serra, que conectava a uma estrada que ia até Bom Jesus da Lapa. E assim vemos a primeira aparição do Capão no mapa, em 1892, com o nome de Capão-Grande. Porém, após a construção das estradas, veio a seca, que foi tão devastadora que grande parte da população começou a adentrar a mata, migrando para os gerais do Vieira, e, a partir de lá, criaram o Vale do Pati.